É a evolução, estúpido!

Ricardo Guimarães d’aprés Alfredo Sáenz, CEO do Banco Santander


Às vezes a gente tem que ser violento para salvar uma pessoa. Principalmente em situações críticas onde a pessoa está desnorteada, se debatendo com a circunstância, como num afogamento.

Eu acho que a propósito da crise de 2008, Alfredo Sáenz, na sua fala do Encontro dos Executivos em fevereiro de 2009, só não deu o tom violento que dei no título deste artigo porque sua posição corporativa e sua elegância não permitiram; porque o recado foi muito claro e funcionou:

“É a evolução!”

Na ocasião, ele pedia que os executivos estudassem Darwin para entender porque os grandes bancos comerciais sobreviveram melhor à crise e o que devíamos fazer para sair na frente e liderar a recuperação do setor. Atendendo à sugestão do Alfredo Sáenz, convido você a estudar o conceito de Evolução e fazer a lição de casa. O que é Evolução?

Em termos bem práticos, evolução é o que acontece com o organismo vivo que se adapta a um ambiente novo, desenvolvendo competências que não eram necessárias para sua sobrevivência no ambiente antigo. Isto é, o ambiente determina a necessidade de evolução. E os organismos evoluem ou morrem.

Para aplicar o conceito de evolução ao mundo corporativo, primeiro temos que entender que uma empresa é um organismo vivo e não uma máquina. Máquinas não evoluem. Ficam ultrapassadas e perdem valor com o tempo.

Organismos vivos aprendem e ganham valor com o tempo. Se alguém achou simples mudar o conceito de empresa- máquina para empresa-organismo vivo, ainda não entendeu o tamanho da revolução cultural que o novo ambiente está impondo aos gestores, à cultura organizacional e às estratégias de negócios. Repare o tom épico do Sáenz ao falar de seleção natural imposta pela agilidade, complexidade e globalidade do ambiente.

Quer uma prova do tamanho do desafio?

Repare quanto o fator INSTABILIDADE DO CENÁRIO nos incomoda, seja em nossos planos pessoais de carreira ou investimento, seja para os planos da empresa.

Como máquinas e pensando “mecanicisticamente” é impossível ver a instabilidade do cenário como fator de oportunidade.

Somente como organismos vivos e pensando biologicamente, que podemos ver as mudanças imprevistas e a instabilidade como fatores positivos.

Exemplo: a instabilidade impõe integração entre áreas, entre níveis e entre empresa e fornecedores para viabilizar redução de tempo e custo na adaptação e atualização de sua competitividade numa situação imprevista. A empresa-máquina estruturada em silos verticais e competindo com seus fornecedores, sucumbe nesta prova de agilidade. Ao contrário, a empresa-organismo vivo, além de responder ao ambiente em tempo ótimo, tem seus sistemas e interatividade com o ecossistema fortalecido pelo esforço para dar a resposta.

Enfim, a instabilidade valoriza as competências de organismos sensíveis, integrados, plásticos, interativos e adaptáveis; e promove sua evolução.

(Ou não. A não adaptação e morte é uma possibilidade porque no mundo natural a morte faz parte da solução de perenidade do sistema, sem ressentimentos).

Na iminência de avanços ou de desastres de proporções tão épicas, eu imagino que as providências corporativas para lidar com as mudanças, precisam ganhar novas perspectivas de urgência e concretude.

A urgência tem a ver com a mudança de atitude das pessoas e o que podemos fazer para ajudá-las. Quando converso com os especialistas em comportamento humano, como o nosso querido e competente Paulo Gaudêncio, eu aprendo a necessidade da conexão entre o pensar, o sentir e o agir para se atingir a efetividade da mudança. É assim que funcionamos. E em geral a ordem é essa mesmo: pensar, sentir, agir. Mas me pergunto: tem horas que a ordem do processo da mudança não é essa? Às vezes a necessidade de agir para garantir a sobrevivência é que vai provocar o sentir para depois pensar os porquês?

Não sei se muda a ordem, ou se a necessidade de agir é tão urgente que tudo ocorre ao mesmo tempo, num átimo de segundo, tipo “do or die”. O fato é que atualmente há a imposição de um ritmo inédito de mudança. E não podemos deixar o tempo das pessoas impor o ritmo da mudança e desrespeitar o tempo dado pelo ambiente, sob o risco das próprias pessoas sucumbirem no processo. Por isso precisamos ajudar as pessoas a mudarem com sucesso e com o menor sofrimento possível.

Porque na perspectiva da concretude, a mudança precisa ser feita com maior contundência e consequência, apoiada em novos desenhos de estrutura, sistemas, processos, contratos e indicadores. E com muita tecnologia de informação e comunicação- TIC. Afinal se é a TIC que está conectando e acelerando tudo, nos tornando seres desadaptados a esse novo ambiente; será ela mesma que nos ajudará a nos adaptar com sucesso nesse novo ambiente. Este Círculo Colaborativo, por exemplo, é uma intervenção na lenta e individualista estrutura hierárquica tradicional e está capacitando a organização a ter maior agilidade e agressividade em sua gestão. (Ao mesmo tempo vai expor as fragilidades de quem não se adapta ao trabalho em rede e não sabe usufruir da velocidade, audácia e consistência da inteligência coletiva.)

Em poucas palavras, a lição de casa é a seguinte:

1. Entender o funcionamento de organismos vivos bem sucedidos, entender os princípios que organizam a matéria e a energia destes organismos, entender a inteligência do seu design;

2. Aplicar este conhecimento no design da estrutura organizacional, dos processos, dos contratos entre as pessoas, entre áreas, entre parceiros, entre concorrentes enfim, repensar e refazer tudo que possa fazer a empresa FUNCIONAR melhor.

Agora convido você a imaginar as pessoas e as empresas que funcionam melhor neste novo cenário. Meu palpite inspirado em organismos vivos é esse: são empresas enxutas, precisas, sem desperdício; sensíveis, adaptáveis e com excelente time do market; confiáveis e atraentes. São extremamente interativas e integradas com seu ecossistema o que reduz absurdamente seu custo de crescimento e garante sua perenidade. As pessoas que trabalham lá são atraídas por seu jeito de pensar e fazer o que permite que elas entrem jogando e contribuindo desde o primeiro dia. No balanço entre competição e cooperação predomina a cooperação o que garante o sucesso da organização. Estas pessoas são tão sintonizadas com a sociedade que conseguem fazer a empresa antecipar soluções para o mercado e garantir satisfação e admiração de todos os relacionamentos. Seus acionistas tem retornos muito competitivos e se orgulham da empresa. Estas empresas não distinguem “management” de “change management” porque a mudança será a norma e não a exceção. Elas são gerenciadas como sistemas vivos, abertos e interativos, sendo alimentadas por e alimentando este inteligente e surpreendente processo de evolução da vida, da sociedade, dos mercados e das pessoas.

Viva a evolução! Porque a alternativa é ser morto por ela.

Anexos

 

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