O futuro do dinheiro

O economista Bernard Lietaer fala sobre possibilidades de melhorar o sistema monetário com a criação de moedas complementares que promovam uma economia mais cooperativa


Toda a teoria econômica foi construída com base em duas hipóteses, vindas desde Adam Smith, porém inválidas e, mesmo assim, jamais desafiadas. A primeira é que o dinheiro é um valor neutro, ou seja, apenas um meio de facilitar trocas e sua origem ou propósito não afeta os investimentos, as transações em si nem as relações entre as pessoas que o utilizam. A segunda é que nosso sistema monetário é algo dado, como a lua é um satélite natural do planeta Terra – o dinheiro pode até ter nomes diferentes, mas foi criado em vários lugares sempre para atender os mesmos objetivos.

Foi assim, provocador, que o economista belga Bernard Lietaer iniciou sua fala sobre o assunto “O futuro do dinheiro”, em 6 de novembro de 2007 no Banco Real, como parte do ciclo de palestras “Encontros de Sustentabilidade”.

Ex-diretor do Banco Central da Bélgica, um dos arquitetos do regime que criou o euro, consultor de multinacionais e de governos em desenvolvimento, Lietaer estuda o sistema monetário mundial há mais de 25 anos. Por isso, é enfático: “o dinheiro é um acordo,geralmente inconsciente, feito por uma comunidade, para ser usado como meio de troca. O dólar como moeda global foi um acerto que se deu no final de 1945, depois da Segunda Guerra Mundial. Porém, quando um contrato não funciona é preciso fazer o distrato. Se a sociedade começa a questionar a eficiência do atual modelo financeiro, temos de pensar em criar outros meios de troca entre a comunidade que evitem colapsos. As moedas complementares são possibilidades, funcionando paralelamente às já em circulação, como o dólar, que jamais poderiam ser eliminadas totalmente”, explica. Alguns tipos, inclusive, já fazem parte do nosso cotidiano: por exemplo, as milhas, criadas por companhias aéreas e usadas para a aquisição de passagens de avião, gerando fidelidade entre os usuários das empresas que as emitem.

Segundo Lietaer, é possível fazer distinções bastante significativas entre as atuais moedas existentes, com base em padrões comportamentais ligados a elas. Algumas seriam “competitivas”, ou seja, criadas hierarquicamente com valores patriarcais, e promoveriam concorrência entre os participantes. Já outras seriam “cooperativas”, desenvolvidas em sociedades mais igualitárias e estimulariam a colaboração entre seus usuários.

Ele lembra, porém, que ainda persiste fortemente um monopólio das moedas competitivas, cujos benefícios espera-se que apareçam em curto prazo, e que, para muitos, cogitar outras alternativas significaria remar contra a maré. Para ilustrar essa constatação, citou a conversa que teve com um executivo. Ao pensar no futuro dos filhos, o homem buscava enxergar um horizonte de 30 a 40 anos, mas quando tinha de fazer cenários para sua empresa, analisava apenas 3 a 4 semestres à frente, acreditando que seria demitido caso propusesse uma forma diferente de comandar a organização.

Contudo, algumas comunidades, sem esperar que o atual sistema financeiro apóie seu desenvolvimento, têm buscado criar sua própria moeda. Nos Estados Unidos, inclusive, estudos mostram que comunidades com melhores condições para seus participantes são aquelas em que as pessoas, para inúmeros fins, conseguem se relacionar sem uso do dinheiro, isto é, as transações se dão de outras formas.

De acordo com Lietaer, embora a maioria dos economistas não se dê conta, a quantidade de moedas complementares em economias cooperativas tem crescido vertiginosamente nos últimos anos. Em 1984 havia apenas dois registros. Já no começo da década de 1990, esse número saltou para 200 a 300. Contudo, hoje em dia já existem 2500 experiências em operação documentadas, sendo que, acredita ele, deve haver pelo menos o dobro não oficiais e, por isso, ainda desconhecidas.

O “Timedollar” é uma iniciativa de intercâmbio comunitário, em que o tempo é o meio de troca. Quando alguém ajuda o outro, recebe um crédito de uma hora e o beneficiário passa a ter um débito, que pode desaparecer se também fizer algo para os demais. Esse mecanismo cria uma moeda baseada em um acordo e, por isso, não surge inflação nem juros, já que uma hora sempre representa 60 minutos. Lietaer conta que, nos Estados Unidos, 31 estados já pagam para seus funcionários usarem seu tempo para solucionar problemas sociais, o que tem se mostrado bastante efetivo.

O “Fureai Kippu” é uma moeda complementar usada no Japão também com bastante sucesso – aliás, ali existem entre 850 e 900 em atuação, sendo 380 para tratamento de idosos. Ao se dar conta do problema que o país viveria com o envelhecimento da população, em que não haveria fundos suficientes para garantir os cuidados a essas pessoas, o então Ministro da Justiça. Senhor Hotta, criou um sistema em que os jovens, ao auxiliar idosos, recebem créditos de horas para usarem para si, futuramente, ou por seus parentes e amigos em diferentes partes do Japão. Cerca de 75 mil pessoas já usam essa moeda alternativa.

Outro exemplo é o Chiemgauer, corrente em algumas cidades da Alemanha. Emitido com uma paridade de 1:1 com relação ao euro, perde uma porcentagem de seu valor a cada trimestre. Para não ter perdas, as pessoas gastam o dinheiro e este deixa de ser um meio de acúmulo de valor. Isso estimula a economia local – o Chiemgauer é usado para compras na região e não para bens de alto valor, estes adquiridos com euro – o que cria uma ecologia econômica saudável, especialmente porque ninguém é obrigado a utilizá-lo – a escolha de realizar pagamentos com essa moeda é facultativa.

O economista acredita que estamos em um momento no qual é preciso pensar de maneira inovadora para a elaboração de um plano global que garanta a construção de uma saúde econômica sustentável. Isso se dará por meio da criação de três formas de capital: financeiro, humano e social. Trata-se de ferramentas para diferentes finalidades, que não seriam atendidas com apenas uma moeda local.

Sobre o capital financeiro, constitui-se em todos os ativos financeiros que são vendáveis. Uma inovação seria a micro-poupança natural: criar uma plantação de árvores, pagando o trabalho com ações. Conforme as árvores crescem, mais aumentam de valor, ao contrário do que acontece com o dinheiro, que perde valor com a inflação. No momento da colheita, as ações podem ser transformadas em dinheiro convencional.

Com relação ao capital humano, ele explica que se configura em habilidades acumuladas por uma pessoa, que permitem a ela receber dinheiro futuramente. Como aumentar o conhecimento acumulado de um país? Segundo o economista, dezenas de estudos realizados na década de 1980 revelaram que a melhor maneira de aprender algo é ensinando o conteúdo a outras pessoas. Por isso, sugere ao Brasil a criação da moeda “Saber” para a cadeia de ensino e aprendizado, baseada em uma experiência bem sucedida: os programas de menores em escolas primárias e secundárias dos Estados Unidos e da Inglaterra. Neles, estudantes mais velhos tornam-se mentores dos mais jovens fora dos horários de aula e as horas gastas transformam-se em uma moeda a ser trocada futuramente para pagamento parte de mensalidade em universidades. Para Lietar, o “Saber” traria inúmeros benefícios ao país, uma vez que metade da população tem menos de 15 anos e será preciso educar todos esses estudantes, o que poderia ser feito com um novo método de ensino e aprendizado. Outras vantagens do “Saber”: com aumento de horas na escola, diminui-se a evasão escolar; os alunos melhoram seus desempenhos em sala, além do estímulo à amizade e à solidariedade entre gerações.

Por fim, Lietaer abordou o capital social, caracterizado pelo valor coletivo das redes sociais, em que intercâmbios não comerciais acontecem. Já existem diversos modelos de moedas alternativas em prática, com baixo custo de implementação, a serem citados: em Curitiba, no Paraná, há 20 anos existe a “moeda do lixo”: quem separa os resíduos para reciclagem pode trocar os sacos por vale-transporte; em Fortaleza, no Ceará, existe o Banco de Palmas, uma instituição de crédito montada pela Associação dos Moradores com o apoio de ONGs, com moeda própria, criada para circular a riqueza dentro do Conjunto Palmeiras.

Lietaer reforça que a utilização apenas da moeda nacional leva a um colapso da noção de comunidade e, por isso, é preciso sairmos da inércia e acreditar em outras possibilidades de gerir o sistema monetário -- já existem mais de 2500 experiências de moedas alternativas, muitas ainda não oficiais, e esta é a onda do futuro.

Foto: Trench Side View Detail Daniel Arsham

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