Depois do caos

O historiador norte-americano Immanuel Wallerstein afirma que a crise do moderno sistema mundial deverá prolongar-se até 2050


"O Sistema Mundial Moderno está chegando ao fim. Mas serão precisos no mínimo mais 50 anos de crise terminal, ou seja, de "caos", antes que possamos ver surgir uma nova ordem social. Nossa missão atual e nos próximos 50 anos é a missão dos utopistas. Trata-se da tarefa de imaginar e empenhar-se em criar essa nova ordem social".

Wallerstein, "Após o Liberalismo"

Para o historiador e cientista político norte-americano Immanuel Wallerstein, a queda do Muro de Berlim, em 1989, significou o colapso do liberalismo e o início da fase terminal da hegemonia norteamericana.

De seu ponto de vista, a União Soviética foi, depois da Segunda Guerra Mundial, um agente subimperialista dos EUA, e o leninismo, uma versão radical do liberalismo e de sua crença no "reformismo racional" do Estado, visto como instrumento eficaz e indispensável para realizar a transformação social.

Essas surpreendentes afirmações aparecem nos 16 ensaios escritos por Wallerstein na primeira metade da década de 90, reunidos no livro "Após o Liberalismo" (1995), recém-traduzido no Brasil.

Mas o que poderia parecer à primeira vista um mero exercício iconoclástico consiste, na verdade, em uma obra que sacode a mesmice e desafia para uma reflexão, absolutamente indispensável, sobre as transformações das últimas décadas do século 20 e os caminhos do futuro.

Aos 71 anos, Wallerstein já publicou uma extensa obra, em três movimentos. O primeiro focaliza o problema do desenvolvimento, sobretudo nos novos Estados africanos que nascem na década de 1960. O segundo examina a formação européia -no "longo século 16"- do "moderno sistema mundial", uma espécie de galáxia em expansão contínua, composta por uma "economia-mundo capitalista" e por um "sistema interestatal", sob a batuta sucessiva -nos últimos 500 anos- de três grandes potências hegemônicas: as Províncias Unidas, no século 17; a Grã-Bretanha, no 19, e os EUA, no 20. Por fim, os ensaios e os livros mais recentes, da década de 1990, diagnosticam a "crise terminal da hegemonia norte-americana" e discutem a estratégia dos movimentos sociais anti-sistêmicos.

Crise terminal

"Após o Liberalismo" situa-se exatamente no ponto de passagem do segundo para o terceiro movimentos. A partir de sua teoria geral, Wallerstein analisa a conjuntura internacional e deduz algumas diretrizes estratégicas para a esquerda mundial. Mas, na passagem da teoria geral para a análise conjuntural, esse novo livro propõe uma hipótese que, se verdadeira, significa o fim do próprio objeto da teoria. A atual decadência americana, que teria começado na década de 1970, não seria apenas um caso clássico de crise e transição hegemônica, procedimento normal dentro do "sistema mundial" nascido no século 16.

Tratar-se-ia de uma crise terminal do próprio "modern world system", que deverá se prolongar até 2050. Daí a previsão de que depois do "caos", após 2050, não nascerá um novo "hegemon", mas sim um novo "sistema mundial".

O que estaria em curso no momento seria, portanto, uma espécie de mudança de galáxia ou de universo. Segundo Wallerstein, a hegemonia americana seguiu o curso normal e reproduziu o mesmo ciclo vital de suas antecessoras. Mas, nessa última fase, seu declínio se somou aos efeitos da Revolução de 1968, que espalhou pelo mundo a descrença na capacidade reformadora do Estado, idéia central da ideologia "wilsoniano-leninista" (espécie de pensamento único do século 20), partidária do "welfare state" e do desenvolvimentismo. Assim, a derrota comunista de 1989 significou também a derrota desta crença "wilsoniana-leninista", o que teria deixado atrás de si um grande vazio utópico, ocupado, depois de 1968, pelo "neoconservadorismo" e pela "nova esquerda" dos movimentos sociais e das lutas anti-sistêmicas; ambos avessos a tudo que tenha a ver com Estado, políticas públicas e desenvolvimentismo.

Declínio dos EUA?

O argumento de Wallerstein combina idéias provocadoras e uma boa causa com vários conceitos imprecisos e muito poucas evidências concretas. Comecemos pelo velho debate sobre "a crise da hegemonia americana", no qual Wallerstein se destaca pela insistência na tese do declínio do poder global dos EUA, sobretudo depois do término da Guerra Fria.

Ele resiste em aceitar -hoje quase um consenso- que, a partir da década de 1980, os EUA teriam recuperado a vanguarda tecnológica em quase todos os setores decisivos da economia, e não apenas no campo estratégico-militar, impondo, ao mesmo tempo, o dólar como a moeda de um novo sistema monetário internacional, sem base no ouro ou em outro padrão de referência que o próprio poder americano. Na direção contrária, as evidências que apresenta, favoráveis à tese do declínio, são dispersas, heterogêneas e extremamente impressionistas, abordando aspectos da demografia, da ecologia, da cultura etc.

Muito mais difícil ainda de aceitar é a sua previsão de que o próprio sistema econômico capitalista será destruído por uma crise de "profit squeeze", de escala planetária, num momento em que se reduz "urbe et orbi" o "trabalho necessário", aumenta a exclusão dos trabalhadores e cai a participação dos salários na renda nacional em quase todos os países do mundo.

Por outro lado, a idéia de uma geocultura responsável pela legitimação do "sistema moderno" é extremamente interessante. Mas fica difícil aceitar que a luta entre socialistas, conservadores e liberais tenha sido apenas "uma pseudobatalha da modernidade", simplesmente porque todas essas três grandes ideologias teriam defendido, em algum momento, a necessidade de fortalecimento do Estado ou acreditaram na capacidade reformadora ou desenvolvimentista das políticas públicas.

Afinal, o verdadeiro debate nunca foi a favor ou contra o desenvolvimento, e, sim, sobre o "como" e "para quem" desenvolver a riqueza das nações. Além disso, o livro não esclarece suficientemente como se originam, se identificam e se distinguem as crises de hegemonia dos demais momentos de tensão e retrocesso dentro do sistema mundial. Ou mesmo, o ponto principal, como seria possível distinguir uma "crise de hegemonia" de uma "crise terminal" do próprio sistema, como a que estaríamos vivendo.

Essas questões foram obscurecidas principalmente pela imprecisão dos conceitos de "hegemonia internacional" e "transição hegemônica". Trata-se de dois conceitos que ajudam a compreender a estabilização relativa e o funcionamento do sistema, mas que não conseguem dar conta de suas contradições e do desenvolvimento tendencial de seus conflitos, que existem e se mantêm ativos, mesmo nos momentos de maior legitimidade e paz hegemônica. Talvez por isso a visão de Wallerstein pareça sempre dividida em grandes panoramas históricos, nos quais quase não há lugar para mudanças e análises de conjunturas e em que tudo está sempre em crise terminal. Noutros tempos, dir-se-ia que Wallerstein carece de uma visão mais dialética do desenvolvimento histórico do capitalismo...

A nova esquerda

Os problemas enfrentados no livro, entretanto, transcendem o debate puramente teórico, sobretudo

por causa da dimensão "militante" de "Após o Liberalismo". Cada ponto discutido afeta diretamente as conclusões normativas e as diretrizes políticas, propostas por Wallerstein, para o que chama de "nova esquerda" mundial. Em síntese: sugere o rompimento definitivo com a estratégia dos partidos políticos da "velha esquerda", de luta pela transformação social, por meio da conquista do poder estatal; propõe, no limite, que se abdique da própria formação de partidos e da definição de prioridades estratégicas; estimula a descentralização sob a forma de uma multiplicidade de movimentos e grupos sociais de todo tipo, avançando em todas as frentes simultaneamente e lutando pela democratização radical das relações sociais e pela igualdade de direitos entre todos os indivíduos e grupos; e sobretudo propõe uma recusa intransigente às tentativas de administrar o sistema em qualquer dos seus níveis.

Segundo ele, essa "nova esquerda" não deve temer o colapso político e econômico do sistema; atribuindo toda a responsabilidade de gestão a seus beneficiários, deve se concentrar na criação de uma nova ligação social entre os níveis de luta local e mundial, desconsiderando o nível intermediário dos Estados nacionais.

Não fica claro, na estratégia defendida por Wallerstein, o que fazer, durante os próximos 50 anos de transição, com as necessidades materiais dos "condenados da terra" que forem incapazes de se globalizar, permanecendo "reclusos" dentro dos atuais Estados nacionais. Sobretudo quando se tem em conta que, apesar da tendência polarizante do desenvolvimento mundial do capitalismo, houve casos de desenvolvimento nacional bem-sucedidos depois da Segunda Guerra Mundial.

Esse é um ponto delicado da discussão. Mas parece fundamental distinguir entre a tese da natureza seletiva dos desenvolvimentos nacionais e a tese da inexistência ou impossibilidade do próprio

desenvolvimento capitalista fora do núcleo central do sistema. Da mesma forma, convém separar o que foi a insatisfação dos revolucionários de 1968 de uma avaliação realista do papel do "welfare state", na construção dos sistemas de proteção social universal dos países desenvolvidos.

Até prova em contrário, a globalização atual não alterou algumas das condições e contradições básicas do capitalismo. Em particular, não alterou o fato de que a luta dos trabalhadores, dos pobres e dos excluídos ocorre dentro das fronteiras dos Estados nacionais, em que se geram e se acumulam os recursos capazes de alterar a distribuição da renda e da riqueza e em que se organizam o poder e o direito, que podem e devem ser democratizados.

Por último, fica difícil imaginar como se pode constituir um novo sistema mundial pós-moderno e póscapitalista, partindo apenas de infinitas ações locais e protestos globais, sem nenhum tipo de intermediação estatal, mesmo quando se sabe que se trata de uma luta dentro de um sistema controlado pelas "grandes potências". Talvez por isso Wallerstein volte sempre ao tema da longa caminhada, uma espécie de peregrinação dos "novos utopistas". Mas, se for por esse caminho, é bom que os peregrinos se preparem e se abasteçam bem, porque dificilmente chegarão à sua Compostelas em menos de dois ou três séculos.

José Luís Fiori é professor de economia política internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autor de, entre outros, de "60 Lições dos 90" (ed. Record) Folha de SP

Foto: Cattelan

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