A mente sitiada

Por Henrique Schultz Del Nero


Uma psicologia séria, em tempos de mercado soberano, pode tornar-se refém de um dilema: adular o público, ainda que com teorias forçadas, às vezes mentirosas, ou elevar o nível, correndo o risco de não ser ouvida. O consumidor, esse tiranete que escolhe o que lhe apraz, agora é fórum de decisão sobre o rigor e a precisão da informação. A satisfação do cliente pode em certos casos levar à adulteração ou à maquiagem do produto. Adulteração, quando se vendem inverdades sob a aura de ciência. Maquiagem, quando se vende o óbvio, travestido de novidade de última geração. Ou bem entendemos que a lógica do mercado admite até mesmo a mentira, ou reformulamos alguns dogmas acerca do compromisso com formação e educação. Talvez tudo não passe de efeito colateral da sociedade livre: pluralismo ou tentativa de conciliar, sob a aura de igualdade, o inconciliável.

A mente que se vende por ai lembra televisão sem circuito e com duendes mágicos que protagonizam os espetáculos.

Essa mente parece não ter cérebro a lhe dar suporte - pelo menos cérebro como entende a ciência e não como propalam seus mistificadores -, não adoece e pode o que quiser, desde que mentalize, tome vitaminas e consuma baboseiras. Uma ciência do mental pode, por ora, afirmar que há um recrutamento dinâmico de populações de células - neurônios - que, dada a complexidade do processamento dos sinais elétricos, sincronizam em diferentes freqüências.

Tal fosse o comitê de uma empresa, a mente não é um departamento alojado neste ou naquele pedaço do cérebro; é um modo de reunião, em diferentes locais, que valoriza a regra de convocação - código neural - e não qualquer elemento que tivesse assento estável no comitê. Por isso é cérebro e não é, na medida em que se podem substituir os integrantes de cada comissão, desde que respeitada a lógica da convocação. Sem isso não haveria reabilitação neurológica e psiquiátrica. Tampouco haveria distúrbio ou lógica.

As empresas também precisam de saúde mental? Claro, perdem-se bilhões de dólares por ano somente com depressão, sobretudo devido à perda de produtividade. Mas em lugar de chamar o especialista, compra-se um modismo para "levantar o moral do pessoal". Seria bom, se não fosse péssimo. Bom, porque não faz mal dizer obviedades. Mal, porque faz muito mal dizer obviedades.

A mente é um produto do cérebro. São bilhões de neurônios e trilhões de conexões. Vai daí que deve apresentar algumas limitações e algumas desregulagens. Seria bom dizer que a mente é fantástica, mas é muito ruim dizer que pode o que quiser. Seria bom dizer que presume um equilíbrio entre o pensamento, a emoção e a vontade, mas é muito ruim batizar equilíbrio, harmonia e educação como “inteligência emocional”. Faz mal dizer obviedades porque a tirania se impõe não pelo que afirma, mas pelo que omite.

Ciência séria quase não dá manchete, mas o público a venera quando liga o celular ou quando experimenta o mictório com descarga acionada por célula fotoelétrica. Ama-se a tecnologia, braço menos nobre da ciência. Menos nobre porque comprometido com o imediato, com o prático, com o lucro e com o retorno fácil. Ciência é estrutura; tecnologia é conjuntura. Mas numa sociedade de agrado ao consumidor a conjuntura precede e determina a estrutura.

Falar de uma mente que permanece refém do discurso do espírito nos últimos séculos, situá-la no cérebro, dizer que tem limites, que pode adoecer, isso não faz sucesso. Ao contrário, recheá-la de misticismo, duendes, anjos, esoterismo, vitaminas, vida natural, amor (embora não ao próximo, nem aos excluídos), vidas passadas e outras tantas coisas vende aos montes.

Tiranizados por alguns sábios do mercado livre e da sabedoria, resta-nos, para falar da mente, de seu sítio cerebral e de seu poder, limites, anomalia e remédio, mantê-la trancada na pequena reunião de iniciados acadêmicos. Pena. Com isso perdem o público que não se submete a abandonar velhos preconceitos; a imprensa que apenas informa, atravessadora passiva de informação que deveria interpretar e discutir; a sociedade, enfim, que poderia aprender algumas lições.

Primeira lição: desconfie dos milagres que se apregoam acerca da mente e do cérebro. Embora tenhamos ido longe, nossa ignorância científica é maior do que pensam aqueles que se encantam com qualquer best-seller. Sabe-se muito mais do que a mente não é capaz que daquilo que é capaz. Quem conhece boa ciência sabe que é melhor procurar um cisne preto para derrubar a afirmação de que todos os cisnes são brancos. Quem se encanta com truísmos vive exclamando e cortejando gente que diz que cisnes são brancos e cada ano mostra um para confirmar a teoria.

Segunda lição: entender a relação da mente com o cérebro, a complexa articulação que propiciou que surgissem linguagem, sociedade, sujeito público e privado e, no cume disso tudo, moral, requer caminho tortuoso.

Terceira lição: a satisfação não é o melhor critério para testar teorias, como não o é mostrar o cisne branco. Quando lançamos hipóteses científicas importa tanto o que se afirma quanto o que se nega, e em que condições. Uma mente ilimitada não é mente, é mágica.

Quarta lição: se vamos formar alguém e ao mesmo tempo ter nesse alguém um julgador impiedoso, balizando nossa atitude pela sua satisfação, então não eduque mais os filhos, não reprove mais o mau aluno e, por favor, somente dê ouvidos à vizinha e ao clamor das ruas, ainda que esse clamor peça pela quiromante, pela caça ao boi gordo no pasto e pela volta da ditadura.

Quinta lição: afora distúrbios mentais que devem ser precocemente diagnosticados e tratados, não há nenhum conhecimento sólido sobre cérebro e mente que possa ser vendido na porta da empresa, da escola ou da sua casa, sem que haja uma forte dose de oportunismo em jogo.

Desconfie quando alguém falar da mente e não citar, ato contínuo, sua natureza cerebral, suas limitações como qualquer órgão físico, sua capacidade de comunicação e, pasme, o fato de estar no cérebro animal a origem funcional do comportamento ético, não sendo mero fruto de época, "coisa de nossos avós" diria o enricado sem escrúpulos.

Alguns autores bem sucedidos, disputados a tapa pelas editoras e por uma mídia nem sempre coerente, gostam de falar de uma mente que é apanágio de sucesso pessoal. Outros poucos, menos lidos, mais áridos, procuram lembrar que a mente nasceu de um cérebro que está num animal mais frágil de corpo que a raposa e o tubarão, criança pequena de tão longa gestação e infância, mas que pela razão e pela reunião solidária pode fazer vingar a espécie humana.

HENRIQUE SCHÜTZER DEL NERO é médico psiquiatra formado pela USP. Bacharel e Mestre em Filosofia pela USP. Doutorando do Depto.de Engenharia Eletrônica da POLI-USP. Coordenador do Grupo de Ciência Cognitiva do Instituto de Estudos Avançados da USP.Atividade em consultório privado de psiquiatria e psicoterapia há 13 anos.

Regularmente faz palastras e escreve textos sobre ansiedade e distúrbios emocionais para os alunos do Anglo Vestibulares. É autor de O Sítio da Mente: Pensamento, Emoção e Vontade no Cérebro Humano", com lançamento previsto para março pela Collegium Cognitio e de O Equilíbrio Necessário, Editora Scippione, com lançamento previsto para o 2o semestre. Tem mais de 35 trabalhos publicados em congressos e revistas técnicas nacionais e estrangeiras sobre modelos interdisciplinares de mente e cérebro.

Anexos

 

Voltar